Eu me acabo nas coisas do mundo
deixando minha vida sob a Angústia
o ter ser nada em algo
Eu me acabo nas coisas do mundo
sou a massa da periferia
o poeta negro que sempre fui
— escrevo folhas & folhas em benefício dos incendiários
planejo contigo a simbiose perfeita das nossas mentes
ambas maravilhadas—
Eu me acabo nas coisas inseparáveis
com minha visão em satori
com minha visão capotando automóveis
com minha visão apaixonada por janelas
com minha visão em José Agrippino de Paula filmando o relógio da Central do Brasil
correndo a madrugada com sua super-8
Eu me acabo nas coisas do mundo
sem dar continuidade a tradição alguma sobre a Terra
Espontâneo, despojado,
decapitando os ídolos da geração de 1968
Compulsivo na temporalidade
Eu me acabo no desconforto encerrado de quem não seguiu o mais íntimo deleite libertário
Nas coisas do mundo, na margem supra-histórica do meu zen experimental
— Zumbi, Marighella & Eu desenhamos a Estratégia,
os três sentados numa calçada sem policiamento, na Antiga Pequena África—
“Conquistaremos as selvas!”, urramos.
Eu me acabo nas coisas do mundo, produzo a vontade presente,
nosso Alto Xingu sonoro,um quarteirão varrido para bem longe
Eu desprezo as doutrinas cicutas tronos dinheiros
junto meus braços à Intifada que se espalha no rugido imperturbável dos desertos
Eu me incluo entre aqueles que se esquecem da vida e se dedicam à fúria
observando a Decadência no hall dos trens caindo de novo na vida
Eu me acabo nas coisas do mundo
Ouvindo as lamentações desabrigadas de uma nova paixão
que me fala de Bakunin, Sete Nações Armadas & de seu Eros político bem ao lado das meninas que faturam horrores na Pça. Paris
Eu vivo nos coletivos do mundo
no mais implacável dos verões, no vir a ser,
na mais duradoura pintura de guerra
— eu me acendo na mais duradoura gravura da boceta lunar.
Inquieto, eu me acabo nas folhas secas e no chão sujo
nas sinalizações
reflexões e meia-noite no bairro portuário
Salobra, navios queimando em sobrolhos enferrujados
nas coisas do mundo
nas latas amassadas
nos catadores das latas amassadas
nos viadutos ocupados por famílias inteiras de miseráveis
Eu me acabo nas coisas do mundo
um guaicuru farejando a morte acima dos edifícios,
nas coisas proibidas
poluções e marquises do amor
Eu me escondo nas rachaduras mundo
sem glórias ou bandeiras
eu balanço minha cabeça e lanço um cardume de enguias na solenidade dos meus queridos professores
Eu acho que envergonho uma turba inteira de epígonos orgulhosos,
ortodoxos, eruditos e renuncistas dos sentidos
— imagino os livros empilhados nas bibliotecas do mundo
e o santo ladrão de livros também empilhado nas coisas do mundo—
Calçadas boêmias, narcólogos desamparados,vidraças rajadas de chumbo na tristeza, ilhas em transe atlântico,
agrupamentos de eunucos barbeados limpando os fuzis da ordem
eu penso nos fardados do Juramidan
(eu alcancei a miração também!)
Eu dissipo as nuvens de fogo sobre nossas cabeças
eu recebo os poetas esfaqueados
(e os kantianos ainda pregam os deveres contra a vida!)
Eu me acabo em mim mesmo
Eu escapo do espírito do tempo
Eu me concentro na profusão
Eu me acabo nas coisas do mundo
Eu leio os poemas de Éle Semog.
Voa Pena Branca!
20 horas atrás
