sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

A Existência

Eu me acabo nas coisas do mundo
deixando minha vida sob a Angústia
o ter ser nada em algo
Eu me acabo nas coisas do mundo
sou a massa da periferia
o poeta negro que sempre fui
— escrevo folhas & folhas em benefício dos incendiários
planejo contigo a simbiose perfeita das nossas mentes
ambas maravilhadas—
Eu me acabo nas coisas inseparáveis
com minha visão em satori
com minha visão capotando automóveis
com minha visão apaixonada por janelas
com minha visão em José Agrippino de Paula filmando o relógio da Central do Brasil
correndo a madrugada com sua super-8
Eu me acabo nas coisas do mundo
sem dar continuidade a tradição alguma sobre a Terra
Espontâneo, despojado,
decapitando os ídolos da geração de 1968
Compulsivo na temporalidade
Eu me acabo no desconforto encerrado de quem não seguiu o mais íntimo deleite libertário
Nas coisas do mundo, na margem supra-histórica do meu zen experimental
— Zumbi, Marighella & Eu desenhamos a Estratégia,
os três sentados numa calçada sem policiamento, na Antiga Pequena África—
“Conquistaremos as selvas!”, urramos.
Eu me acabo nas coisas do mundo, produzo a vontade presente,
nosso Alto Xingu sonoro,um quarteirão varrido para bem longe
Eu desprezo as doutrinas cicutas tronos dinheiros
junto meus braços à Intifada que se espalha no rugido imperturbável dos desertos
Eu me incluo entre aqueles que se esquecem da vida e se dedicam à fúria
observando a Decadência no hall dos trens caindo de novo na vida
Eu me acabo nas coisas do mundo
Ouvindo as lamentações desabrigadas de uma nova paixão
que me fala de Bakunin, Sete Nações Armadas & de seu Eros político bem ao lado das meninas que faturam horrores na Pça. Paris
Eu vivo nos coletivos do mundo
no mais implacável dos verões, no vir a ser,
na mais duradoura pintura de guerra
— eu me acendo na mais duradoura gravura da boceta lunar.
Inquieto, eu me acabo nas folhas secas e no chão sujo
nas sinalizações
reflexões e meia-noite no bairro portuário
Salobra, navios queimando em sobrolhos enferrujados
nas coisas do mundo
nas latas amassadas
nos catadores das latas amassadas
nos viadutos ocupados por famílias inteiras de miseráveis
Eu me acabo nas coisas do mundo
um guaicuru farejando a morte acima dos edifícios,
nas coisas proibidas
poluções e marquises do amor
Eu me escondo nas rachaduras mundo
sem glórias ou bandeiras
eu balanço minha cabeça e lanço um cardume de enguias na solenidade dos meus queridos professores
Eu acho que envergonho uma turba inteira de epígonos orgulhosos,
ortodoxos, eruditos e renuncistas dos sentidos
— imagino os livros empilhados nas bibliotecas do mundo
e o santo ladrão de livros também empilhado nas coisas do mundo—
Calçadas boêmias, narcólogos desamparados,vidraças rajadas de chumbo na tristeza, ilhas em transe atlântico,
agrupamentos de eunucos barbeados limpando os fuzis da ordem
eu penso nos fardados do Juramidan
(eu alcancei a miração também!)
Eu dissipo as nuvens de fogo sobre nossas cabeças
eu recebo os poetas esfaqueados
(e os kantianos ainda pregam os deveres contra a vida!)
Eu me acabo em mim mesmo
Eu escapo do espírito do tempo
Eu me concentro na profusão
Eu me acabo nas coisas do mundo
Eu leio os poemas de Éle Semog.

Poema Azul

“Ce fut d'abord une étude. J'écrivais des silences, des nuits,
je notais l'inexprimable, je fixais des vertiges.”
Rimbaud



Enquanto cruzavas o Parque Ibirapuera
durante a hora mais espessa
seguindo bem de perto o girassol iluminado de Mário de Andrade
arrastavas consigo a fonte borbulhante de todos os cantos noturnos
—serias de fato o menino visionário?—
Roberto Piva, compreendi que dos seus versos nascem cidades intermináveis
cujos amantes semeiam o olho do cu da calma
sem nenhuma trégua chorando curvada
plenos ferozes jamais servis
—Heliogábalo exuberante espalhando a vertigem sobre o vento de São Paulo
Pernas elétricas que surgem nas piazzas de Chirico trazendo o
futuro colapso
Sua mensagem visitou a extensão dos galicismos sangrando pelo continente
Antes da névoa rascante
Antes da chegada de um jazz sobrenatural
que circunda as longas temporadas no inferno
escondidas nas entranhas cobertas pela túnica rasgada
qual um orixamã pousado no cume das serras vibrando na distância.
Antes da revoada dos meninos sem face agitando a vida através dos céus junkie
Nova Express emitindo o holy holy holy holy holy holy holy de Ginsberg
sondando o santo santo santo santo santo santo santo
e o louvor do velho sagrado Whitman intergaláctico
livre da ignorância de algum leopardo ferido em solidão
Terrível professor,
eu te vi sonhando o veludo ditirâmbico através dos quartos sem pintura.
através dos anarcanjos ceifando as razões de mais uma epifania
e do olhar expelido na imensidão brilhante da autoconsciência
Sem nenhuma forma de descanso
para além da neblina de mais um dia em chamas
nas esquinas murmurosas do sexo
nas fumaças de um mormaço
esquizofrênico
Através do escaravelho pintado de vermelho
na sombra da última árvore plantada no minuto final
Ó Piva Piva Piva Piva Piva Piva Piva Piva Piva Piva Piva!
Todas as palavras que pronuncio e que hei de pronunciar surgem e desaparecem em teu vaticínio — eletricidade da corrente nômade e graça da urgência solar
dínamo do estopim generoso que atrai os olhares da juventude dispersa no universo!

Coda

lenta digestão da paisagem
passagens
tarefa-síntese do poeta
que sonhará novamente
a expedição
rumo ao desconhecido

os destinos
da raça
estão embaralhados

armada dos ares
e maré das horas que ninguém percebe
avalanche em pêlos

bem a bordo da maquinaria pós-metafisica

dobrando as enseadas
& as voltas excessivas ao redor da silhueta

(a garganta dos dias sou eu
saqueando sua pior tristeza)

fim de semana guardado na lembrança
quando fui o estrangeiro
e o mais livre e despreocupado também

espera na rodoviária
(caiçara
que nunca chega!)

cidade a oeste de tudo
ao sul do sul
intermezzo dos deuses
cogumelo aprisionado na estufa púbica

bares girando nos anéis de Saturno
algazarra freqüentada por robôs hedonistas
bebendo plutônio

queimada no cerrado em época de estiagem
menina quéchua vestida de wild child
adoro sua completa falta de rigor

lua japonesa dos sentidos
iluminura torrencial
Haroldo de Campos devorando o banquete oferecido pelas musas de Camões
parangolé esvoaçante nas escadarias de entrega e felicidade

aranhas filosóficas tecendo a linguagem+ visões + ressaca +
navegação cósmica

teu corpo de anarquia suburbana
coroa algo no largo de lá

comunicação primitiva
mangues eletrônicos emitindo bits de lama
hai kai revolucionário que não quer revolução alguma

séculos sem pressa jogados na rede
você fez uma estátua sem dedos
você derrubou todos ídolos
nenhum Sgt.Peppers
nenhum Kerouac no ano de 1967

aniversário no alto-mar

ponte que jaz no círculo do copo
e alguém cantando só pra mim

mergulho radical no existencialismo tupinambá
hipsters sem medo de nada

o vento te acalma
y o Contini barato te dá onda

dias abertos a espera de um convite
forma gostosa
se inscrevendo no poema
inteligência colossal jamais pedante
deuses abatidos na próxima estação
Lou Reed se contorcendo no lado selvagem de Apolo
caravana tuaregue, coragem sem fim,
cavalo ácido marchando na demência de Nietzsche pela última vez

Êxtase sem abrigo

“Há um rio de esgoto
na cidade aberta
cercado de trânsito
por todos os lados”
Fábio Rocha



A ode à Avenida Chile tem um toque tecnicolor

Sanhas de grafite e amônia urinando a cor no concreto

Eduléia pancada, puta flor iogue da clarividência

Vídeo-clipe das multidões femininas se multiplicando

Tempestades de areia zunindo até a morte.

A Lapa é logo ali.Onde os sem-nada surram a história
completamente presos ao quarteirão.

Irei fotografar essa imagem pra você.Antipose total. Pulsão e lugar-na-memória.

Ilha deserta surgindo.Espremendo um chiqueiro do McDonalds.

Repensar, refazer tudo de novo.Tudo

Estilhaços do amor cruel pairando sem plumas.

São 15 h 15 h 15 h no coração morto.

Profetas nus vomitam a canção dos lírios abatidos

Macunaíma das favelas,
quero que se dane o Rio e Curitiba!

Vou arrumar minhas malas
e partir desse buraco

A bancarrota e suas sirenes malucas jamais abrigaram meu coração

Minhas elegias são maiores

Essa é a vez da serpente.Guarde isso.

Fim de alguma coisa.

Fim dos acadêmicos cadavéricos!

Tantas horas marcadas nesse pulso bonito!

Começa o jorro escorrendo veloz

Acendam suas luzes!

Chamem as autoridades!Convoquem a segurança!

Algo se anuncia.

Nenhuma clareza

E dois estrondos de colisões!

É chegada a hora do beijo lacrimoso do Bispo do Rosário na face morna crispada morena solitária anti-paterna do bom Deus!

Satori, Safári

o fel é buda
o mel é buda
como
são
as
realidades
unas e juncas
e
distintas
e luzentes em alguma borda do infinito
que jamais é
numérica
como a realidade dos seus braços jogados em cima de mim
sem a menor preocupação ou cerimônia
como é o peso particular do teu sono cor de rosa
do teu sono de bicho infantil
pendurado em árvore
abraçando
ao poucos
definindo
aos poucos
rabiscando & confundindo minha vida inteira
ESSA É A APOSTA
PERIGOSA DE UM
CÉU CONTAMINADO
A ILUMINAÇÃO das réstias
que esticam
os dias
de paz .

Fluxo

a Marcelo Moraes




Não me pergunte o nome
se super-carioca
ou se sei lá o que
por que de certo mesmo
somente os meus olhos
catalisando um acontecimento
jamais consumido
dentro do sol da solitude dissolvida
que brilha acima de um milhão de sós
sem vida
e essa cidade sempre estrangeira
espraia no asfalto suas estrelas
toca os absurdos da mulher na cama
comigo
& faz de mim( & só de mim,
no meio desses tecidos de possibilidades indefinidas)
um animal acontecido.

Elegia Lilia Brik

“seus olhos têm muitas cores
que refletem o brilho de cada hora
estranhas palavras
atravessam nossas conversas
É PRECISO QUE SEJAMOS MODERNOS COMO O AMOR”
Cláudio Willer




pode ser que apareças de novo
na vaga concisa ou no umbigo da gare
desenhando o bojo das velas
a expressão mitológica que faltava
o vento da eternidade


como quem aceita a fatalidade
( amor fati) eu te devolvi a libido em brasas

—& o avião escarpado
impediu a tentativa
de mais um suicídio—

(num copo de papel)
você não estava sozinha
quando ficou pouco a pouco alargando
os rascunhos devassos
de um jogo
nada sutil!

Calvin & Haroldo

para Wagner e Tássia




a chuva descendo o hemisfério
traz consigo as fórmulas fatais da libertinagem
.............e essa coisa gostosa
.............de
.............ver
...........água
............caindo
..............do
...........céu
.....não requer explicação alguma
nem se parece com nada
...................que já tenha sido escrito
...a impiedade de um Sturm und Drang
.........chegou perto
confundiu ainda mais a Tijuca
..........mas não foi o bastante
na noite passada
os códigos implícitos do
.................Yin
..................& Yang
.......quase acertaram em cheio
.......a nudez apaixonada
.........do cortejo
..............a Dioniso
......(deslocamento que a classe média litorânea
...................jamais conseguirá
...................entender)
......a bruxaria punk
..........de 2 irmãos inocentes
pode ser que sim
.......que 2 olhares vermelhos encarando a cidade fixamente
..........—gesto súbito—
sejam duas cóleras rompendo o cordão de isolamento da apatia
.......quiçá um dilúvio de esquecimento
..ou quem sabe ainda a jovialidade sônica que faltava
....desabando as canções feitas de escamas
....cheias de asas
........desde os subúrbios.
entre as árvores.

O círculo vicioso da selvagem

p/ Clarinha



.....satélite da vontade girando sem fim
mar de tabaco quente & folhas molhadas de Fernando Pessoa
......dimensão dos barcos vastamente sensuais
FOTOGRAFIA DO TEU PESCOÇO REGISTRADA NA HORA CERTA
legítima ternura se revelando
.........parodiando a seriedade dos catedráticos
.... .TUA VIDA É UM AFORIZMO SEM IDENTIDADE
..GUERRILHA DE SORRISOS Y SONHOS
VIAGEM AGORA

Detalhe das lonjuras entreabertas

boca existencialista
sexy gladie
suas palavras são letais
e essa é a graça
pelo menos para mim
(menino passageiro que sou
cheio de febre
e ainda sim
complemente sereno)

sim,
você , eu & o mundo
podemos sair de férias
e nunca mais voltar
Moçambique nos espera
o Mediterrâneo nos aguarda para o amor e
suas anti-verdades ecológicas
eu prefiro reggae
você Domecq
sem pedras de gelo, por favor,
mas antes
& acima de tudo
o melhor que temos a fazer
é misturar as tramas
esquecer as portas por onde riscamos as fronteiras
apagar esse labirinto!

Somos os deuses que meditam para além do crepúsculo

Eu te espero no fim do mundo
no final do terceiro mundo
sem nenhum poder na esquina
eu te espero
na poça da olheira funda que pisca a cidade
e suas miríades de trabalhadores escravos engolidos pela miséria.
Nostalgia corre o céu e ninguém vê
Perambulo minha vida nos corredores estreitos de uma livraria
sob o olhar escondido de um buda
ele
sentado
no topo
do núcleo da
gema
que nos separa
da
Eternidade
(lugar que ambos conhecemos
com asas de borboleta
a mudança permanente que sempre volta sua chama a um ponto qualquer
a esta altura
nossa sublimação é uma descarga elétrica
pulsão que despeja a si mesma sobre as antenas
igrejas
bytes
televisores
códigos
instituições
e uma tecnocracia fascista
nos encara
ameaçada!).

O estabelecimento de uma comunicação a nível sobrenatural

para Sérgio Ortiz filho + irmão+ singularíssimo poeta





no comecinho da noite
........a chuva cai oleosa
.................feminina
é o mistério, você vê,
...........certamente o coração atômico da Terra varrendo o bairro da Pavuna
fazendo a sujeira bem maior agora:
—quando o povo se espreme debaixo das lonas—
...........ouvindo os preços do fim do dia
que só os camelôs souberam vender:
...............PUROS OLHOS VERMELHOS
& os objetos não identificados sinalizam uma paisagem sem grandes jardins ou edifícios
...........onde as estratégias da malandragem ruminam hiperbólicas
...... ..e sua constante alusão aos demônios
é um antídoto que se projeta no azul
e se passa por um instante glauberiano

corte/seqüência:
viadutos & grandes sertões em primeiro plano
ilhas de cimento vigiadas por Oxossi
senhor da fertilidade nas matas eletrônicas
bom companheiro de Xangô nas tintas libertárias de um Fela Kuti inteiramente pensativo nas batidas africanas dos quilombolas de tênis
que discorrem a tensão insubmissa
sem que houvesse a menor necessidade de um Bretch
ou do messianismo sempre cômico dos universitários marxistas
sem nenhuma redenção
nem a mais barata ou sedutora(portanto).

Do sentimento oceânico

o livro que tu desvelas
é uma parte de mim
em algum manifestar irrompido no mutismo
entre as lágrimas
e as pequenas coisas

como o pão & o vinho
corpo & sangue do cordeiro Cristo

como a ponte erguida
sobre o abismo humano
magnífica
em sua concepção

como os princípios de ordem e
de destruição
alheios
a qualquer aparência repentina

no livro que tu devoras
com toda a paciência
eu estou bem:
cercado de glória ,
cosmo, sol ,círculos,
braços esticados,
mares dissolvidos e serpentes

minha sombra avançando
metade
da Índia

como dois impulsos
da própria natureza:
a embriaguez & o sonho
que se beijam
sem a nossa mediação.

Descobri que eras um leão

“What is this face, less clear and clearer
The pulse in the arm, less strong and stronger –
Give or lent? More distant than stars and nearer than eye”
T.S. Eliot



Descobri que eras um leão
Machado negro terrivelmente suave
Descobri que sonhávamos aquela errância
na proa sem mapas de um outono
Poeira levantada nas ruas
céu cambaleante e totalmente bêbado
sem um chapéu de nuvens sequer

Escute, e não ouse, nem pense em titubear,
pegue meu coração calmo
e atire-o mais longe
que puder
Bata de porta em porta
e comunique a seus vizinhos
“Descobriram
que eu era
um leão!”

Pois justamente aquilo
que lhe é tão próprio.
Recebo de supetão
E vagando sem maiores alardes por estes enigmas
Agarro-me sobremodo à minha intuição
deveras brincalhona

Descobri que eras tudo
e que em nada se assemelhava ao que supúnhamos
Vi tuas garras abrindo vales perfeitos
e de sua fronte chorar um pedido
de sede.

Comemos do fogo sagrado
E jubilamos o curso irregular da nossa existência
Fomos únicos, breves, parcos, companheiros
E o confronto impreciso de corpo
contra corpo
Celebrando a explosão da energia incitada

Descobri sua bestialidade
Você, por seu turno, o que soubeste de mim?
O que sabes agora que ultrapassa o plano das coisas óbvias, visíveis?
Por acaso o meu nome?
Os meus amigos?
Minhas moedas guardadas sem nenhum valor?
Ou o meu coração palpitante de esperanças
ainda hoje?

Da sua parte as derivações estancam
e confundem uma investigação que se pretenda final
Quem assim proceder se enganará inconsolável
Uma vez que sua blandície independe das latitudes
Sendo por demais contraditória a natureza das superfícies

Meus sonhos são folhas pisadas por toda a gente
Um sonho distraído dormiu comigo ontem à noite
Assim imagino teu semblante
Levando em conta que trabalho este tema bem tarde da noite
Após ver-te saindo
Sim, sim, e exaustivamente sim!
Mais uma fantasia ininterrupta!
Mais uma peçonha.E uma dádiva a mais!
JUVENTUDE SOBRE-HUMANA
Descobri que eras um leão!

Transcurso

Estamos por aí,
nos vagões do mundo
Olhos plácidos
Desejo aceso
Mentes abertas e um
país inteiro voltando pra casa.
Movimento das coisas sem nome:
“Olha o maço no seu colo!
Olha o maço vazio!”
“ Esqueça, esqueça!”

Agora nos encaramos
& a língua santifica a velocidade do amor pelas ruas
& do Paraíso em suas pequenas órbitas
enquanto a lua abandona hipnótica
o frágil casulo negro
de uma jabuticaba
no fundo do copo

Brincando de ser meu sol
Noutra banda de um carnaval
no ventre elástico
suado, desigual
Como polpa realizada
que não coube mais
em si mesma
e que depois disso

...................................deslizou

.........................................
......................................de

.........................................
......................................um

........................................
........a...... outro.........espelho...........no...........oceano

Eu te vi na linha tesa dos edifícios
Nos vagões de um mundo sem rumo
percorrendo as Estações do Esquecimento
sendo a conexão
e seu lamento de blues

O
que
mais
poderíamos
ser
naquelas
horas?


Olha o maço amassado pela moça morena no sereno na poça movimentos mágicos!
Olha o maço amassado pela moça morena no sereno na poça movimentos mágicos!
Olha o maço amassado pela moça morena no sereno na poça movimentos mágicos!
Olha o maço amassado pela moça morena no sereno na poça movimentos mágicos!
Olha o maço amassado pela moça morena no sereno na poça movimentos mágicos!
Olha o maço amassado pela moça morena no sereno na poça movimentos mágicos!

Guardavas anotações para um sábado só teu
Anotações para um sábado chinês.
Imaginavas
o olhar fixo
Eternamente ali
Enquanto as pessoas saíssem em disparada
em busca de mais prazer

Nos vagões do mundo, navilouca,
de pé na solidão das searas
Nos passos de um velho amigo em noitadas maravilhosas
repletas de conversações
que jamais puderam ser maravilhosas
outra vez

Na pressa metálica
na divagação dos seus olhos que puseram as luzes num carrossel
nas luzes que beijaram seus olhos
nas luzes que ninaram seus beijos com os olhos

Notavas também que lá fora nenhum anjo tocava os mulatos que seguiam cabisbaixos
Do mesmo modo que nenhum deus surgiu ao fim de um bocejo
para enfim anunciar o estrondo monolítico
da proximidade instantânea do som de uma chuva pesada.
(qual era o rosto do desespero?
Que nomes assumimos durante essas viagens?)
Diga me então, sem pudores,
uma vez que não há rumos certos para ambos nesse mundo!
VOCÊ DESCOBRIU QUE ERA UM ANJO?
ANTES DE NASCER PUDE ESCOLHER SUA ALMA?
JUSTAMENTE A ALMA QUE SE ENCANTARIA POR TODOS OS CAMINHOS IRREGULARES—NENHUMA RESPOSTA?—
VENTO ALGUM SUSSURROU A VELHA PERGUNTA ANTES DA AURORA PINTADA VERMELHA ?

Visões da Praça da Boa Morte

Quando duas formas se reconhecem
Quando duas formas se tocam e se confundem na manhã clandestina de uma escuridão muito imediata
Quando duas formas acontecem juntas
e juntas se desesperam entre aflição e fúria
Quando essas formas
- que afinal são duas -
se oferecem à navalha do conhecimento
Ah! Por fim avistam o incessante desdobrar-se
de um segundo COSMOVISIONÁRIO

25 tatuagens

a Carla de Medeiros no tempo




Meus olhos te seguem a tarde inteira
são olhos de leopardo
como são teus olhos
................também
....................e eu me encontro num jardim nagô
............como quem procurava a jóia africana
....num mundo
...............de ilusões

Você sacode minha barriga
...............................& eu rio
......................................& eu fecho uma porta
no escuro
seu corpo
parece
mais quente
do que
antes
(Me pergunto: você se cansará disso
...........................................um
..................................................dia?
...................................................Nas margens
.............................................da matéria púrpura?)
Seus olhos , mil olhos,
.................como par de brincos
.......................que deixarão minha alma fantasiada
..........para além da tarde escrita
na boca
..........da noite.

Força Plástica

Sem chagas
ele ocupa o centro de todas as imagens
o corpo feliz caminha
de uma......................................a outra ponta da corda
longa, longamente
um homem além
longa, longamente
um homem além

Ele é uma criança entre um leão no deserto
Heitor, Daniel, uma risada quente
flores! flores! flores! flores! flores! flores! flores!
flores vivas para o homem que desata minha vertigem!

Ah se eu fosse um Bashô!

eu sonho através da cortina
eu sonho através da porta fechada
através do pescoço do ventilador virado contra a parede,
através da bruma
& de dentro de um quarto escuro
eu sonho a árvore
eu me sento na cama
sem beatitude
e carrego comigo o Ocidente inteiro sem sexo
dinheiro prazos horários
fugas
eu soube disso ontem:
que os dias realmente se repetem
é verdade
mas eu não tenho o veneno o revolver pandemias bombardeios
pode se aproximar de mim, sem problemas,
eu sou o homem dos trópicos,
perdendo o cabelo
distante da boemia
eu lavo os pratos que eu mesmo sujei no almoço
eu respiro a água que desce a pia
e nessas horas o detergente & a espuma são meus grandes amigos
,com certeza,
eu ouço os sopros de John Coltrane revirando meus escombros
-como ele chegou até aqui?, me pergunto-
lá fora as nuvens são cinzas & imóveis
e eu me vejo agarrado a mim mesmo
encolhido
c/ medo
sem meditação
absurdo, sem calma,
sem alma, alguns livros,
vivo
& sendo apenas aquilo que a superfície extrapola
—mais um Orlando qualquer no meio do mato,
27 anos resmungados através de um corpo
...............essas imagens
...........que afinal de contas sou eu mesmo completamente insatisfeito.

BARBARIZMOS

a Academia Brasileira de Letras desconhece a miséria.
a Academia Brasileira de Letras não bebe o chá da miséria
a Academia Brasileira de Letras não come as torradas da miséria
a Academia Brasileira de Letras não imortaliza a miséria
a Academia Brasileira de Letras não vê a cor da miséria.
a Academia Brasileira de Letras não chupa o sexo da miséria.
a Academia Brasileira de Letras não cita a miséria.
a Academia Brasileira de Letras afasta a miséria.
a Academia Brasileira de Letras não conjuga os verbos da miséria
a Academia Brasileira de Letras passa longe da miséria
a Academia Brasileira de Letras é tão miserável!
a Academia Brasileira de Letras vive como se não houvesse a miséria
o Lixão de Gramacho, em Duque de Caxias.

Palavra desordem

para Ademir da Silva




há uma palavra que não quis se reduzir a nada
uma instância subterrânea
que sustenta seu próprio ritmo
uma Nação Zumbi anunciando
as zonas revoltadas
expandindo-se como um rap
um jongo
um funk
um maracatu panafricano

é a desordem:
uma estranheza que cheia de dentes
afaga minha condição negra
— com as folhas de um pé de manga
a criança protege suas vergonhas.

sim, eu sinto,
há uma palavra rara, arredia,
sufocada, nua,
ensinando-nos que apenas sem disciplina
faremos o ritual

uma palavra desordem na cidade do Rio,
no coração de Porto Alegre, nas favelas de São Paulo,
(ou quem sabe ainda)
nas paragens de Palmas
—que eu elabore a palavra então
com o pulso aberto no ar
no sangue aberto
em pedaços
de ar—
e que numa palavra transborde a VITALIDADE
que o poema-corpo
só tentou

Os Mouros

Alguém parecido comigo
mergulhado na própria distração
pode ser uma menina diante da tv
preguiçosa, espantando mosquitos
ou quiçá um rapaz de dedos finos
temeroso
da singularidade ativa
que se aproxima

nós estamos derramando um país vertiginoso em linhas de papel!
—alguém
tão desatento
quanto eu
— num futuro, de madrugada
talvez não compreenda por que fomos assim:
barulhentos, livres, soltos, arredios,
nada civilizados.

Trópicos de sangue

a Júlio Auto Amorim





um poeta de gestos contidos anuncia o fim da caretice
para o furor das donzelas & viúvas da LÍNGUA

seus versos,
suspensos em fogo,
atravessam o ordinário concreto das paredes
—quem preservará a retidão na escrita
após lê-lo?

a poesia, bem sabes,
antecipa o fruto da novidade vindoura
suas mulheres sem morte guiam matilhas insones

um poeta
mastiga
a bandeira
e eu me sinto melhor sem a PÁTRIA.

É você que não acredita em discos voadores

.................Eu sou aquilo que passa
& o que sobra
........A sutileza da sombra
& os contornos da barba adulta brincando de eclipse na página virada
................................. Eu vim de uma tentativa de compor no vazio
............ . numa folha de papel.
....... . Numa folha de papel depois de ser amassada,
Eu sou feito de fuligens & de gasolina queimando até amanhã
..Queres me reconhecer? Eu me assemelho ao vento que te espera lá fora
Eu cresço no ventre úmido que assombra as ruas na gravidez criminosa da menina in crack.
Eu sou uma tomada de consciência naquele canto extraordinário do Jacarezinho.
Talvez eu me sente pela Revolução Impossível.
Ou pela batida policial(o que é mais provável)
....Logo, logo, assim, eliminando os grilhões do meu ego
— de supetão.
Eu preparo a chegada dos poetas que ainda não nasceram,
trazendo nos olhos os manifestos infernais.................
......Eu estive preso na FUNABEM.
......De onde enviei o poema que escrevi no verso da minha pele
...........Eu sou um expoente da minha geração.
Eu que jamais quis ver a face de Deus, o cu de Deus, ou ser um filho de Deus
Eu que jamais levei em conta a relevância de Drummond
Eu que vivo oculto nas samambaias com cheiro de banana.
Eu que vim do Equador cantando os folclores que aprendi lá
Eu que tenho mil olhos
........................mil anos,
.......................... mil eternidades( todas gritando afoitas debaixo do sol)
..................................duas solidões ciganas me espreitando
Com o spleen chuvoso que atravessa os séculos.
Com o banzo mítico da Pedra do Sal.
.......Si, Longe do seu entendimento
que apenas conhece através de suspeitas
uma vez que seu Paraíso é também a lembrança latente daquela embriaguez semi-consumida.Nas sacadas vampiras que não passam de grades.À espera de um instante qualquer delinqüindo os arredores
da sensação de se estar inserido de vez nas cenas metálicas de um Rio de Janeiro explodindo

Nenhum Dever. Só Devir

A vontade que se espalha nas curvas da tua falta
não traz consigo os instintos do pássaro aleatório
eu estou sentado na roda dos tolos
meus desejos insatisfeitos correspondem ao mundo terreno
(único possível & existente na circularidade)

Eu amo seu rosto pelos desertos cariocas:
essa é a herança do seu teatro nô:
budismo barato ,que eu sei muito bem,
ficará borrifando uma promessa de carnaval

Jupiter Variation

Sob camadas e camadas de sonhos
eu sei
há um chamado que é único
me tire dessa roubada
que eu te levo aos espaços
assim que o copo esvaziar
e a bebida modificar a luz de cada gesto
fazendo de cada passo uma epopéia suprema
como um intervalo entre duas notas azuis
ou como a cidade à sua espera, às 18 h
e você lendo Caio Fernando Abreu
e a flecha negra da paixão reescrevendo a sorte do nosso vício.

Siringe


“A mí no me importa nada
más que tu querer”
García Lorca




automóveis queimam na tela azul do cinema da minha imaginação
punks caraíbas rasgam docemente a noite sub-equatorial

................... SORRISO VASTO
muito tempo sem te ver

suas pegadas de coiote sinalizam um destino impetuoso na areia incandescente
......flor nos fios do cabelo

você parte como chega
bem como queres
... move as pedras as pedras
de um............. até............ outro ponto

VOO DE GARÇA FERINDO LATITUDES INTERMINÁVEIS
.................................(essa é você)

coração de outono sopro concreto de folhas
janelas abertas através da vida:
... ....eu.

Lugar de fala

meu amor é o selvagem dos pensamentos mágicos
é a revolta estrangulada que precisa esbravejar sem pudores
é a velocidade da hibernação que antecede os goles de coquetel molotov
SÃO AS AURORAS DAS NEGRAS MARIAS ABRAÇADAS
................. gás de pimenta que não dispersou a multidão
........................olhar que cruza o beco com o seu
sem medo
.........................e que tal qual o meu
......................... .funde-se a monotonia dos tijolos crus
ESTA CORDA BAMBA ENLAMEADA É A LINHA DA POBREZA

Bantu


“Contaram-me que meus avós
vieram de Luanda
como mercadoria de baixo preço
plantaram cana pro
senhor do engenho novo
e fundaram o primeiro Maracatu.”
Solano Trindade



O tempo não é o seu amigo
—aquele panfletário teimoso
que depois de seguidas humilhações
ficava xingando a posição servil—
O tempo é bem mais o incêndio
que na madrugada de ontem
consumiu a favela ribeirinha
próxima de onde moro.

Fim do fundo da vala sem graça
que se apressa e devora
sem respostas ou tréguas.

A feição mesma do tempo não é suave
tampouco acima dos problemas.
Dificilmente é reconhecido
-ele somente faz percorrer os lares da família brasileira
como se indicasse uma cronologia diferente-
(Pois bem, diz ele, estes são seus filhos:
você, eu, ela, aquele ali.
Todos armados. Maleses ,
malditos)

O tempo enlouqueceu Lima Barreto
mudou a cor e o nariz do Machado de Assis
deixou Cartola no ostracismo
Mandela preso
e os sentidos do gueto completamente apurados

O tempo se aproximou de mim na última segunda-feira,
numa esquina antiga da Presidente Vargas,
tocou meu ombro e perguntou com sua voz de hip hop:
"Aí, qual é a sua?”

Propaganda

Cocaína é lixo

Assista menos TV

As esquerdas brasileiras mantém uma relação estreita
com o poder secular da Igreja Católica Romana

A bancada ruralista também

Lembre-se, o deus protestante só conhece a vitória

O Brasil é um país sem negros
uma vez que somos pardos mestiços morenos mulatos.Todos nós

As religiões de matrizes africanas embelezariam a vida nos trópicos

As AMÉRICAS não eram LATINAS.Tampouco AMÉRICAS

João do Rio foi detido ontem à noite na Lapa, pela Policia Militar do Estado do Rio de Janeiro por defender abertamente o sistema de cotas raciais nas universidades públicas

O samba já foi devidamente domesticado, Nelson do Cavaquinho me deu essa dica

As mulheres brasileiras serão livres assim que conseguirem a paridade salarial

Passe cinco anos sob a égide dos burocratas na Academia

Se alimente de carne vermelha, e de carne branca também.Ambas são muito saudáveis

Sintonize-se.O desenvolvimento sustentável é mesmo possível

Então quer dizer que o funk carioca estimula a criminalidade entre a juventude pobre sem qualquer perspectiva?

E que a bossa nova ultrapassa os limites de alguns quarteirões de Ipanema?

Se beber não pense.
Quando for dirigir passe sempre bem perto das estrelas

AS TRÊS ECOLOGIAS

..... qualquer problema que seja
qualquer problema que surja
........ qualquer problema que SOJA

Coke

mundo sem compaixão
o que tens por prioridade?
mundo bonito
ou feito de plástico
o que fizeste às escuras?
mundo,
muito atenciosamente,
tacanho
caco
oco
coke

Melodia sussurrada por Amy Winehouse(ontem à noite)

“eu não moro em estrela alguma
embora venham de cima
os meus olhares pintados
e sejam nebulosas
suas direções

dormimos lado a lado
& estirados
em várias intenções
famintas

-mas como é viciosa
e chata
mais uma tristeza!
mesmo depois
das maiores garantias –

Mas não!Ah não!
Não se engane tanto
Não a tal ponto
c/ as notas do meu soul

Eu não moro em estrela alguma!”

After Hesse

to Gedson only



None kind of suffering
much lengthy or even soon
Thus as none easiest illumination
was dropped as a gift
at the door of my room.

Da hora mais noturna

no Rio e sem medo
no Rio e sem medo
e com você
sob a névoa e o céu
sob a fonte e o véu
contigo
aqui no Rio
sendo aquilo que sou
por tudo aquilo que és
de abrigo.

2 & 2 não são 22

nós 2 juntos podemos descobrir o xintoísmo
sob as lamparinas amarelas, você sabe,
assim, na maior Liberdade
- mas de qualquer forma,
fique sabendo,eles te chamariam de coreana
e a mim de chinês-
e quem sabe ainda
podemos ser
filhos de Cristo
sem a maldita culpa martelando o coração,
logo ali, na Vila Madalena
& numa banheira só nossa
revolver a fábula dos índios invisíveis do Anhagabaú
-calmos & felizes debaixo dessa chuva maluca-
(& a cidade engarrafada
sumindo
debaixo dessa chuva maluca)
na Pça.da Sé a gente pode ser 2 baianos de Pernambuco, ou
talvez um casal de rappers sob o olhar fixo de um menino branco em pleno furor skinhead
-ou 2 libertários sem a menor esperança no meio da USP -
a gente pode conseguir um carro no ABC , uma família rica em Campinas – a gente pode se esbarrar c/ os minotauros do Piva lendo trechos de Baudelaire no meio da quizumba &
ler em voz alta(um para o outro)
todos os poemas do Cláudio Willer

- eu seria teu anjo em Santos
& você regaria meu bonsai em Cubatão -

você cometeria a loucura de se tornar um pouco mais carioca?
eu escreveria um poema nada concreto cheio de amor/humor
e o provincianismo da paulistada riria de si próprio dessa vez
pode ser que sim, pelo menos dessa vez, eu acho

As ondas que são prateadas

p/ Rogério Mattos



Copacabana é cheia de bonecas e vagabundos iluminados
Copacabana é suja e isso me faz gostar de Copacabana
Copacabana não esconde seus capitães
Copacabana vórtice negro mordendo o Atlântico Sul
Olhos de Bossa + Detetives + Mortalha investigando os bares de Copacabana à nossa procura
Copacabana eu também lamento seus surfistas aposentados no Bairro Peixoto
Copacabana você é uma Sereia de Néon atraindo os Beduínos da zona norte
que migram desde a Penha atrás da salvação que você prometeu somente a eles
Copacabana suas bundas de areia traçam um destino violeta nos biquínis atômicos
Copacabana eu juro que não queria falar dos seus clichês
Copacabana você nunca me enganou
Copacabana eu te confesso que prefiro Sta. Teresa
Copacabana Mururoa é você
Copacabana nós somos seus turistas americanos cowboys traficantes de luxo astronautas índios zanzando expansivos sob o cinema do seu sol
Copacabana Cantagalo Babilônia.
Copacabana me olhe com seus olhos de milhões de milhões de olhos que são suas janelas abertas
Copacabana com milhões de milhões de olhos de velha mãe avó, Copacabana.
Copacabana traga o Leminski mesmo sem a grana.Copacabana esperta na certa,
Copacabana, mon amour.

Viva Vaia

Seja qual for a graça da ventura vida
eu hei de esquecê-la
para em seguida relembrar sua riqueza
e trazer à tona
cada desimportância inesquecível
e de novo,
e seguida,
e repetidamente
outra vez mais

pois à moda de um Álvaro Campos
considero tão-somente àqueles
que foram e são ainda vaiados.

Digressões das mais baratas

a conversa de agora
possível marco zero da nova amizade
é finalmente o brinde desimpedido
& a festa esfuziante sendo celebrada à meia luz
c/ taças de vinho que intensificam a neblina de mais um mistério
c/ aureolas de fumaça
que pululam
a cada rodada

risco fluorescente que oscila em meio às traduções de Catulo
num canto especial do universo
localizado a três pontos de distância da realidade

onde as naves se lançam ao mar revolto
antes de nós mesmos
repetição
e suas variações de arcano
carta mundo do tarô
& a insurgência noturna curiosa muito forte
amor incontido que é o amor sem vergonha dando pistas descaradas

Satisfação!

não seja boba
não seja oca
não sê tão pouca
assim assim
como o anjo da mácula sem porra
dissemine os 3 dias de alegria
mas não me cubra a folia
& só por ora
uma brejeira sem jeito
jamais sufocante
total diletante
sem a grande relevância
do legado de um Marx
ou da propedêutica de um Kant
venha,
mas me venha assim
trazendo o júbilo da constelação e
os sinais do sim
e com o estado da coisa
escancarada
e completamente fora de si
para refazer o amor
noutra natureza de plano
como um acidente em relevo
no seu imbatível
carmesim!

Ovo com Torresmo

pro Felipe





então essa é a graça de ser brasileiro
de se esconder numa trincheira dentro de um bar
beber O sábado mijar poesia barata
de ser capturado por mulheres vermelhas levado a Lesbos Madagascar
subitamente muito longe daqui com a cabeça zunindo e todas as asas batendo
de olhar para o alto e ver aquela folha de amianto fazendo um tremendo estrago
de sentir os ventos terapêuticos batendo contra o Exu do quase-verão
de lançar meia dúzia de olhares como se fosse o antropólogo selvagem que
não faz anotações & identifica alguma coisa muito importante por de cima dos óculos nesse fragmento da existência dependurado como se fosse uma casca ou um cacho pesado enquanto os automóveis tomam fôlego
de se fuçar a cova & cavar o fosso sem grilos pode ser
de se deleitar com a visão dos eruditos correndo em círculos & de
estudar uma série de comportamentos repetidos ad infinitum de rir dos fãs do Chico Buarque & de todos os homúnculos &
de saber saber saber saber saber saber saber que a re-
que a realidade é uma produção neurótica de almas vazias e de loucos tentando ser o
que não são e a música que se transa no samba que se faz assim, do nada
então essa é a forma de não pirar por enquanto
por aqui
entendi
de ser terra e de se contentar consigo próprio
então
essa fruição, vista desse ângulo,
é justamente aquilo que eu jamais teria experimentado se não fosse magia

A hora despercebida de uma pequena iluminação

esses pensamentos que rolam soltos pelas pedras do centro do Rio de Janeiro
imaginam tarefas sem nenhum sentido
são redundâncias da respiração, eu acho,
contornos, polígonos,crateras, leitos
que por vezes se alargam
como afinidades profundas que mantenho com aquilo mesmo que sou
lampejos quase santos
de serenidade
deslizando até aqui
à indiferença total
entre o meu corpo seguindo cansado
e a construção idealística da matéria
cumprindo sua breve dádiva no espaço
tudo soando constantemente desigual
à hora em que um hollywood vermelho pende da minha boca
e à procura de um abrigo para o fogo
me esquivo de um golpe de vento
de um golpe de vento
que desavisado
conseguiu repentinamente
humanizar cada músculo brutalizado da minha dor de cabeça que latejava.

Wake on

Eu queria ser o tao de Big Sur
o Krishnamurti
colhendo as laranjas enxutas
da alta Califórnia
ser o velho
sempre à beira
de rejuvenescer
o curso do rio, o oco do bojo, a fotografia nítida
o âmago do pinheiro
os nós do bambu
eu queria despir o peso dessa vaidade
e só deixar por em mim
uma luxúria intacta:
eu queria tatear as brincadeiras
do seu corpo dócil de yin
na verdade
eu só queria
fumar um cigarro
.....contigo.

Carnavalha

o Tesão por você
é o samba crescendo
cuíca insistente
que arranha a espessura do ar abafado no Largo de São Francisco
que foi
e que talvez ficará
numa lembrança de futuro
como a brincadeira que eu fiz na tua orelha
sua nuca
sem timidez alguma
sedura negra
de cocaína com pedras de gelo:
azucrinação sem igual
SAIBA,
ESTA EUFORIA NÃO DESEJA AS CINZAS DE UM TÉDIO MORTO
............NÃO SONHA AS MEDITAÇÕES, A RAZÃO PURA, A PRÓPRIA DIALÉTICA
é bem mais a intuição extraordinária
que se projeta da carne
fazendo bip-bip
como um radar firme & cego girando sem direção.

Mens@gem

Desde quando nos conhecemos
teclamos conversamos trabalhamos
sorrimos & mijamos separados
eu durmo com um sol nos meus olhos
mas você está em Santos, agora
pensando em mim Bem
eu te amo eu te amo
& teus escritores são malucos
eu aceito seus casos já terminados
Há muito tempo tenho estado só
Há muito tempo tenho estado na cama
sem ter ninguém a quem morder no pescoço, menina
ou mulher, tanto faz, eu
quero seu amor nasci para ele quero você comigo agora.
Icebergs derretem no oceano
Maravilhosas formações de nuvens adquirem contorno
A maquinaria enferrujada mugindo sobre a Cidade Ocidental
Quatro poetas sangram juntos esfaqueados pelo Amor
As folhas agora estão verdes em todas as árvores do Rio
Chegarei até você quando for um dia aberto e olharei bem
nos teus olhos.

Poema Indisciplinável

leve-me até você
à zona medular
ao mergulho ritual no poema do haxixe
para longe dos portos seguros da civilização socrática
lá para dentro da folia dos demônios descontentes no amor
venha, minha doce Lésbia, venha pintar de
negro essa partícula incorrigível da vontade de potência
há um novo mito saliente na garganta do porvir
& uma zona difusa
não mude de idéia se me arrastares por loucas extensões
a vida já se transformou na tempestade
e nada mais pode detê-la
faça dessa completa falta de rigor nossa panacéia
abaixo todos os métodos!
abaixo todos os mestres & heróis!
abajo cualquier una de las perpetuaciónes del mundo!
traga consigo uma miríade de instintos jamais amainados
- esta será nossa Terra, por ora.